“Tenho sofrido todas as perseguições a que estão sujeitos os contrabandistas dos diamantes que habitem as palavras proibidas.”

Natália Correia

Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

Memórias


A memória dos teus passos
rumo à porta da solidão
ainda guarda, marcada na minha
almofada, o clamor da escuridão
em que fiquei, olhando
essa porta, na esperança torta
de te ver retornar
para te novo unir a tua  mão
à minha mão.

Não te vi, nem te vejo.
Se te disser que morreu em mim esse desejo,
Tu saberás que não.

Tento caminhar para a luz
Na convição segura
Que não tornarás a dar-me a mão.

Mas algo em mim sempre te procura.
Algo de mim para sempre se perdeu !...

Busco sobreviver sem ti, mas não consigo:
O simples respirar para mim é um castigo ...

Desfaço-me em pedaços, estilhaço o pensamento.
E de mim vejo pedaços arrastados,
Sem vontade, pelo vento norte,
Anunciando-me prenúncios da minha própria morte.

E ora aceito a sorte, ora luto,
Mas já  nada resta em mim que floresça ou dê fruto ...

Olho-me para te encontrar.
E assim despedaçada,
Compreendo que é de mim mesma
Que estou desencontrada!...

Maria Portugal

Domingo, 27 de Maio de 2012

O mundo na mão

(imagem da rede)
Sim, meu bem, agradeço a gargantilha que
Colocaste ao meu colo  num violoncelo de beijos
E me prendes  ao pescoço, ardente em desejos!...
Agradeço o perfume com que me regas como
Se eu fora uma flor e ao ver que a flor do amor
Te assoma às narinas e à garganta, e com
 voracidade  teus lábios me percorrem,
Os teus dentes fortes, gentilmente,
Mordem as maçãs dos meus seios, depois de
Me arrancares  o vestido  que trouxeste contigo
(Para vestir apenas contigo…)
Não quero que te pareça ingratidão e agradeço.
Mas de tudo o que possas trazer-me,
Declarando-me que ainda mais mereço,

Sim, tudo
É belo, sedutor e tem um preço
Mas eu procuro expressar-te e não consigo,
Embargada no ar que tu respiras,
No teu olhar, no teu sorriso:
É sempre apenas de ti que eu preciso!
Basta que me tomes nos teus braços,
Bastam-me as palavras nos teus olhos
Vertendo em minha pele o suco da paixão,
Basta-me na minha mão , a tua mão
E entre cruzados nossos pés na fadiga
De dar-se repetida  à cantiga do amor
Para que então, repouse sobre o teu peito
O glorioso cansaço de quem ama
E assim , ligados como um, mão na mão
 sobre pé, pernas confundidas ,teu peito, meu colchão
Então nada me falta, estás ali, eu tenho tudo,

Eu tenho o próprio
 Mundo em minha mão !...
Maria Portugal

Terça-feira, 22 de Maio de 2012

A VIA DA VERDADE

Jamais deixarei de ser Tua,
Haja o que houver,
Venha o que vier!...
E se me pedes que o declare
Ao mundo e subscreva
Uma promessa escrita
Porque a palavra leve e
Solta ao vendaval, voa ;
Eu vou marcar de tinta
e luz o chão da tua Rua
E ali escreverei:
“Eternamente tua, sempre tua…”
Mas, se quiserem punir-me
Por te grafitar a estrada
Que farás ? Que dirás então
Se me chamarem
Meliante, insana e farsante ?...
Que farás tu,
 meu doce amor,
Sim, logo Tu,
Cuja palavra dada,
Jamais volta  atrás...
Cuja vida, pela glória do Ser,
cede à honra
e à vergonha o próprio amor que tem ?...
Eu posso ler no teu amado olhar
A tua reacção:
Farás silêncio, apesar de sentires
Doer claramente o coração
E lamentarás ter alimentado
O meu propósito,
Pedindo ao meu amor
Uma declaração…
Mas, mesmo removidos da tua rua os meus sinais,
Tu não esquecerás jamais
Que eu fui ali e diante do olhar do Mundo inteiro
Para ti então escrevi aquelas letras,
Indiferente à mira de todo e qualquer ponteiro,
Sujando de tinta a minha mão…
E eu também não !...
Vale isto dizer
Que talvez para a tua Verdade
Eu não seja destino,
Eu sou não mais que um caminho !...
Um caminho feito de um caminhar
para parte incerta!...
Quando nasci,
Logo saí de mim à descoberta
E tudo o que tenho por adquirido
Na vida
É esta mesma vontade de
Caminhar para Ti
Percorrendo rua a rua,
Atalho ou trabalho com que me
defronte para te encontrar !...

De tudo o que sou
Nada me é mais certo
E contundente do que Tu!...

Tu és a minha verdade !...
E não venham dizer-me
Que não te posso escrever
Sobre a rua, pois é incerto,

Se Tu és em mim a única verdade
Que infinita e imutável me habita,

Como pois poderia andar certa
Caminhando para fora de mim ?!...

Como poderia encontrar-me
Em paz, se Tu és a Paz em mim,
A única que reconheço?!...

Não poderia,
Por isso como apátrida, nómada,
Aceita-me, para que em Ti
Caminho faça :
Deixa-me percorrer as tuas veias,
Embriagar os teus sentidos
De infinito,
É que eu caminho sempre
Carregando a Lua aos ombros
Pelas ruas, para que
Nunca se apague em Ti
Nenhum luar
E o meu caminho
Só em Ti encontra Lar !...

Deixa-me pois, assim ficar ,
Permanecer em Ti,
Qual mosto no vinho...

É da minha natureza
Andar, andar, sem destino,

Porquanto longe de Ti
Não há verdade
Que se faça em mim Caminho!


 
Maria Portugal

Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

No limbo da existência


(Para ver a imagem em tamanho maior clic sobre ela. retrato de Rafaela Lima com
fotomontagem Picassa de Maria Portugal )


Quando chegar o momento
De enterrar o sentimento  num corpo
tornado pó .

 Na vida, perdido o passo,
 lasso tempo de existir,

e se mostrar irremediável partir ...

Prometo-te sorrir se tu  me deres um abraço !...
Um abraço que docemente
me embale até  ao lado de lá...
Dá-me os teus braços meu amor, dá...
 prometo , não me aproprio...
 quero só sentir o fio do laço em que entre eles

 ao teu peito me encostas...

 Cheirar bem a tua pele e embriagada de mel,
 Adormecer num segundo, como se no curto espaço
 que esse laço me guardasse ,
se esvaísse
O que melhor tenha o mundo
 para deixar em meu regaço ...


Maria Portugal

Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

OLHOS NEGROS

Recordo -me , às vezes,  de um tempo,
Em que tu iniciavas estudos para um florir feliz
E eu ( que sempre serei da beleza uma eterna aprendiz),
Ensaiava captá-la para em breves momentos
 ta ofertar!...

Foi a fase, em que tudo
Era novo e de um fulgor tão sedutor
que se impunha , crescendo em nós,

Tal qual se impusera e crescera em nós o amor!...

Memória de um tempo em que
Bordei memórias do meu rosto exposto
ao teu olhar,  na determinação séria
de te impor recordar e ainda mais amar!...
Eu que não possuía nem uma máquina de fotografar...
:-)
Fiz-te um desenho , ao meu tamanho,
Usando a câmara do telefone da “Baby Bear”
Para te mandar como quem manda
Um cartão postal surpreendente
desses que certo será, ao destinatário agradar, fazer contente…
Lembras-te? ...

 Tremia a máquina
Ou talvez a mão , pela emoção...
Entre as ondas de uns capilares fios negros,
Dois olhos que negros queriam ser,
fixavam o teu olhar!…
E tu,  sabendo do mistério e do encanto
Que me parece possuir um negro olhar,
Belo, apto a enfeitiçar...
Fingias que os meus olhos eram negros
Porque , sabendo eu que o fazias,
adorava que o fingisses, a brincar,
com esse teu  dom  de me soltar sorrisos,
esse teu dom,  de me mimar …
E sob a minha janela , à luz da Lua mais bela,
Vinhas de noite cantar Serenatas de encantar
Ao meu falso negro olhar, segredando-me com
as pupilas dos teus olhos :
:)
-“ tens o dom de enfeitiçar,
teus olhos são como o Mar e neles já naufraguei,
tornaria a naufragar, e a luz que há nos teus olhos
ninguém me pode tirar”.
No entanto, meu amor, tu partiste...
Por não poderes assistir ao linchamento cruel da minha alma...
Não mais te tornei a  ver.

 E é negra como o olhar
Esta dor que vive em mim por nunca mais te encontrar.
Desde então, negro é o dia,
Negra a luz do meu olhar...
E sem orientação da Lua, meu coração é falua
Que não mais se faz ao Mar …

Maria Portugal

Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

PENAS



Anseio saber de ti...
Como o anseio!...
Busco-te com desespero, puderas tu saber quanto,
não conterias o pranto com que o teu amor me toca…
Não sabes!...
Ainda bem !...
PESSOA bem ponderou
E viu, clarividente, compreendeu-o, sapiente :
Ver é estar doente da alma,
A saúde reside precisamente em nada ver,
Nada pensar…
Ai, se me bastasse olhar
Sem nada visualizar, ou constar, sem dolorosamente
ser confrontada a aceitar…
Se me bastasse olhar na mais pura fonte
Da imaginação em que o bem,
o desvelo,
o saber supremo
Está em crer num afeto que se tem,
Mas não buscando a sua demonstração
Em razão das puras linhas da lógica razão!...
E para quê ter razão, se
Olhando esse amor, porém , sem vê-lo…
As pupilas contraídas na emoção de um coração,
Saltam de contentamento
 como se no epicentro da alma,
Se congregassem os elementos mais belos
Dos pontos cardeais da Terra inteira
E o nosso corpo fosse um território
Aonde se apostou uma bandeira de esperança...
E pela grei, pela lei e pelo Rei e esse sonho
Que eu não vejo, mas que sei,  advém
Mais que da razão uma confortável impressão de temperança!...

Façamos um trato. Fico em vantagem contigo:
(Pois nunca trais a palavra do trato assumido),
Mas eu em contrapartida nunca traio o amor que me leva a
Viver ainda contigo …
Deixa-me colocar os meus dedos sobre o teu sobrolho
de preocupação, e percorrer com a polpa dos meus dedos
Os traços do teu rosto aonde guardas as dores, os desgostos...
Deixa-me escrever sobre eles palavras de um código linguístico
Que não sendo artístico, pertence apenas aos raros seres
Que não precisam de desventrar um coração 
Para acreditar, sem ver,  na sua composição
Auricular, ventricular …

Serena os olhos, deixa-te levar e
Não terás motivos para lamentar...

Eu vou depois com a ternura que quem reclama
O seu primeiro abraço à vida ,
 doce e suavemente beijar os teus lábios
Dando com os meus um laço,
 e depois seguirei qual falua ondulante,
Dengosa pelo rio do teu pescoço,
 pelas margens do teu corpo,

Até encontrar em ti ,
 respondendo ao toque da minha mão, o teu coração…

Porque eu preciso saber de ti, e quero tanto
Que tudo vira desolação e desencanto por nada poder, querendo-o tanto…

Mas quando eu te olhar,
 venda-me os olhos
 aos desvarios que os apelos do mundo
No teu corpo e no teu peito inflamam :
 não quero ver-te em nenhum desses lugares
Aonde o eco do meu amor já não te chama!

Deixa-me apenas a mão pousada no teu peito e no silêncio
Que se faz a linguagem em que mais nos compreendemos  de facto,

Deixa-me sentir se vibra ainda o teu peito, ardente ao toque
Desta minha mão , essa que esqueci tremente de emoção sobre
A pele do teu corpo, sobre o secreto cantinho aonde me transmitiste
a séria impressão de possuir ainda um coração !...

Maria Portugal

Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

I'm sorry if I'm not perfect


PARA TE MIMAR    ( Mimar Você - Caetano Veloso  )



Apesar da chuva que se faz sentir,
Grita na minha pele uma vontade de sol,
No meu corpo, um anseio de sentir
O mar acariciar-me a pele, como
Se os teus dedos, eles próprios, ma
Percorressem no conforto do arrepio
E do prazer que só o Mar, quando
Se lança sobre um corpo nu, é capaz de
Proporcionar….
Preparo a época de veraneio,
Coloco, retoco, mostro-te em sonhos
Escaldantes que te escapam
Modelos que darão verão ao corpo meu:
Quero que tu escolhas o modelo da capa...
Mas guardo-te uma surpresa:
Um biquíni cor de pele que te há-de colocar
Sob o efeito da miragem de quem ,
no pico do calor
Cega de amor …

Esse, meu bem, não te mostro ainda…
Elegi este para que compreendas também
A dose de carinho com que terás de
Receber o que tenho para entregar-te :

Uma sincera e inigualável vontade de amar-te
E um corpo que não é perfeito,
Talvez nem vá ao encontro do teu gosto
Ou do teu jeito;
Mas que para ti, na redoma do sonho
Mais belo e encantado, sempre estará guardado.
Só para ti, guardado !...

Maria Portugal

A melodia da chuva


Depois de ti,

A chuva de hoje ou, a
de um outro dia,

Não é senão água :

Da que afaga a Terra,
E a faz germinar
Antes de voltar a ser ar,

A ser Mar.

Mar ondulante,
Mas constante
No balanço da mágoa…

E tal qual a sua água,
Não me mata a sede,

Nem de água salgada…

Corre simplesmente,
Escorre pungente

E pela madrugada,

Eu escuto este coro de pingos
caindo afinados em fios

De chuva que sobre o beiral
Da branca casinha
Que a canção cantava,

Ser tua e ser minha,

Tombando tão só, cai, desamparada...

E, tal como eu, depois de ti, desabrigada

Hoje, esta chuva de alma,

Que já foi sonho aquecido ao lume
de lareira ardente ,
 em corpo dolente , feliz por sonhar,

É apenas água
Deste mar de mágoa
Em que morta, finjo,
Parecer viva estar,
Para te encontrar !...

Maria Portugal

Sábado, 21 de Abril de 2012

Não sei se rosa, se orquídea, jasmim, magnólia ou margarida... sei que habito um Jardim...

Porque me deslumbram as flores,
neste Jardim de rara beleza,
uma espécie de magia,
tomou a minha alma e aprisionou-a,
assim, como que num encantamento…

Pasmo, levitando no perfume das cores,
das tantas flores que por uma espécie
de acto sublime de criação divina, Tu,
Uma a uma,
Nomeias com as letras do alfabeto
Em que igualmente se definem a
Palavra mulher e a palavra afecto …

Por vezes, aspiro erguer as pétalas,
Por ti tecidas no mais doce cetim
E transfigurá-las em asas para
Poder sobrevoar todo o teu Jardim....

Voar, levada pelo vento, sentindo
Gemer a terra de ciúme,
ao constatar que se espraia pelo ar
Esse perfume da flor nela plantada
E que pelas leis da propriedade privada,
Clara e exclusivamente, pertencem a ti!...

É então que me
Seguras firmemente o talo junto ao peito,
E explodes qual Primavera em mim,
beijando corolas, pétalas, folhas…
Seguras-me e sussurras-me ,
Em feiticeiro preceito e dizes-me
Que não me deixarás partir do teu Jardim
Pois sou flor para florescer só por teu campo!...

E eu, que nunca soube resistir
Aos teus afagos, olho –te e interrogo-te,
Insto-te a que me digas, qual a zona do Jardim
Que me dedicas,
Que me digas:
-trazes as formas do meu corpo marcado em que pedaço
do teu espaço ?...

Mas tu,
sem me soltares à ternura do laço,
não me respondes...

Mas, apesar de assim ser, também não escondes
A ânsia com que me inibes de voar para outros espaços,
prendendo-me com toda a força terna dos teus braços,
Guardando em tua alma o meu perfume,
Qual indutor supremo de uma espécie de lume
Que olímpico e onírico jamais se apaga !...

E mais devo dizer-te, meu amor,
Pois também não me escapa :

Mesmo, quando no pico do calor,
Arde cruelmente a Terra por desgraça
E todo o campo em flor, vira terra queimada...

Eu sou a flor da qual conservas a semente
Para de novo fazeres magicamente renascer
qual alvorada incandescente, bambaleando
a magia de uma flor perfumada por ti,
A cantar  no teu peito  Eternamente!...
Maria Portugal