Porque me deslumbram as flores,
neste Jardim de rara beleza,
uma espécie de magia,
tomou a minha alma e aprisionou-a,
assim, como que num encantamento…
Pasmo, levitando no perfume das cores,
das tantas flores que por uma espécie
de acto sublime de criação divina, Tu,
Uma a uma,
Nomeias com as letras do alfabeto
Em que igualmente se definem a
Palavra mulher e a palavra afecto …
Por vezes, aspiro erguer as pétalas,
Por ti tecidas no mais doce cetim
E transfigurá-las em asas para
Poder sobrevoar todo o teu Jardim....
Voar, levada pelo vento, sentindo
Gemer a terra de ciúme,
ao constatar que se espraia pelo ar
Esse perfume da flor nela plantada
E que pelas leis da propriedade privada,
Clara e exclusivamente, pertencem a ti!...
É então que me
Seguras firmemente o talo junto ao peito,
E explodes qual Primavera em mim,
beijando corolas, pétalas, folhas…
Seguras-me e sussurras-me ,
Em feiticeiro preceito e dizes-me
Que não me deixarás partir do teu Jardim
Pois sou flor para florescer só por teu campo!...
E eu, que nunca soube resistir
Aos teus afagos, olho –te e interrogo-te,
Insto-te a que me digas, qual a zona do Jardim
Que me dedicas,
Que me digas:
-trazes as formas do meu corpo marcado em que pedaço
do teu espaço ?...
Mas tu,
sem me soltares à ternura do laço,
não me respondes...
Mas, apesar de assim ser, também não escondes
A ânsia com que me inibes de voar para outros espaços,
prendendo-me com toda a força terna dos teus braços,
Guardando em tua alma o meu perfume,
Qual indutor supremo de uma espécie de lume
Que olímpico e onírico jamais se apaga !...
E mais devo dizer-te, meu amor,
Pois também não me escapa :
Mesmo, quando no pico do calor,
Arde cruelmente a Terra por desgraça
E todo o campo em flor, vira terra queimada...
Eu sou a flor da qual conservas a semente
Para de novo fazeres magicamente renascer
qual alvorada incandescente, bambaleando
a magia de uma flor perfumada por ti,
A cantar no teu peito Eternamente!...
Maria Portugal